Relutei muito até aceitar a “ajuda” das inteligências artificiais – vulgo: chat gpt – na minha vida. Não me ensoberbando, mas sempre tive muita facilidade em criar e desenvolver algo a partir do absoluto zero. Essa era uma das habilidades que eu mais me orgulhava. Até que, comecei a usar a IA para um trabalho que nao tinha nada a ver com criatividade.
A princípio, foi muito bom ter respostas na palma das mãos sem muito esforço. Entretanto, dia após dia percebi o quão “preguiçosa” eu estava para pensar, afinal de contas, existia uma ferramenta que me sanava as dúvidas em questões de segundos. Expandi então o uso da ferramenta para o meu dia a dia. Não era mais “dar um google” e sim, perguntar qualquer coisa, sem ao menos elaborar muito a pergunta, em uma barra de pesquisa dentro do aplicativo. Dores, dicas, lugares, sinônimos e por ai vai.
Até que comecei a usar a ferramenta como um potencializador do meu trabalho principal que é ser escritora. Não demorou muito para que as dicas me consumissem e eu enxergasse as minhas ideias todas ruins diante da vastidão que me era sugerida. A autocrítica intensificou ainda mais, porque agora, não era só comigo mesma que eu competia, mas sim com um robô que pensava “melhor que eu” em questão de segundos.
Não. Eu não deixei o chat gpt fazer o meu trabalho, mas posso afirmar com vergonha que deixei ele ser meu mentor. Não conseguia escrever uma frase sequer sem perguntar e buscar a afirmação que eu precisava para seguir em frente. Com isso, percebi que minha escrita mudou, e não de um jeito bom. As ideias continuavam sendo as minhas, entretanto o colocar em prática estava sendo moldado por uma máquina, fazendo com que eu mesma me apegasse a alguns trejeitos que nem eram meus.
A sequencia disso foi que dois meses atrás me afastei da escrita para dar descanso aos meus braços que já sofrem com túnel do carpo e umas férias pra minha mente acelerada. Com isso percebi que não abri a aba do navegador da inteligência artificial, exceto para coisas aleatórias que não necessitavam de uma continuidade de pesquisa ou vários diálogos com uma máquina. Observei que durante quase dois anos usando IA no meu trabalho, eu perdi a graça de desenvolver uma história do zero quebrando cabeça para decidir os nomes dos personagens, gastando horas conhecendo um lugar mesmo que pelo google e youtube para poder escrever com precisão e até mesmo pensando em detalhes que os tornariam únicos.
Nesses mais de 60 dias, livre de qualquer pressão da minha parte mesmo, voltei a projetar com calma, histórias, pensando em cada detalhezinho, levando dias para chegar a alguma conclusão e ainda assim perceber que ela não estava boa o suficiente para ser colocada em prática. Voltei a olhar com mais atenção para a minha volta e buscar da vida cotidiana as minhas referências para um escrever mais humano e original.
Entendi que não se pode colocar alguém dentro de uma caixinha e fazer seguir um padrão só porque com o outro deu certo. Afinal, como aprendi com um escritor anos atrás precisamos escrever algo que só nós podemos escrever sobre. É isso que nos torna únicos e que nos faz cumprir aquilo que fomos designados a fazer.
Quando eu percebi que não estava mais fazendo nada sem o auxilio de IA, percebi também que estava me perdendo, deixando de colocar toda a criatividade que já existe dentro de mim em ação para dar ouvidos a uma máquina, que facilmente pode sugerir a mesma coisa para um milhão de pessoas. Resultado: todo mundo fazendo, criando e vivendo da mesma forma.
Não conseguia mais pensar em algo bom sozinha. Bom, era isso que eu pensava até ficar esse tempo sem produzir nada. A verdade é que nós temos a capacidade, entretanto, nosso tempo, como humanos é diferente de uma máquina. Não dá pra fazer tudo manualmente em dois segundos. As coisas levam tempo. Mas não é isso que tem sido vendido para nós com o uso de inteligência artificial.
Me via cansada o tempo todo mentalmente por estar sendo exposta a diversas possibilidades do que seguir em frente. E com isso a criatividade estava sendo minada, afinal, não existia tempo ocioso nem espaço para que elas florescessem sozinhas. Uma luta interna gigantesca por não saber colocar tão bem as palavras em seus devidos lugares no primeiro rascunho me impedia de escrever minhas próprias ideias. Até escrever a mão parecia uma tortura, afinal tinha me acostumado em escreve sempre com a aba do chat gpt aberta ao lado. Resumindo: estava perdendo minhas habilidades de escrever como sempre escrevi por não me achar mais suficiente.
Após muitos dias assim, cheguei a conclusão de que não quero nada perfeito.
Quero que tenha a minha essência, e neste mundo caído, perfeição só existe em Deus. Correr atrás dela aqui na terra é puro desperdício de tempo e esforço.
São nessas lacunas de imperfeição daquilo que se cria que a nossa essência é evidenciada. Quero errar, apagar todo um documento, quebrar a cabeça tentando encontrar uma forma melhor de descrever algo, pesquisar, prestar atenção nos detalhes, ouvir conversas que não são minhas, observar a vida acontecendo ao meu redor, me encher de referências que me darão repertório para colocar em palavras aquilo que eu quero escrever e publicar.
Espero que de alguma forma este texto tenha te feito refletir do lado daí, ponderando se o uso das tecnologias que foram feitas para nos auxiliar estão mesmo nos auxiliando ou se estão roubando a alegria e o cuidado daquilo que só nós deveríamos estar produzindo.
Com carinho,
Larissa Bueno